sexta-feira, 13 de junho de 2014

Do fracasso ao colapso: os últimos dias de Phil Lynott
sexta-feira, junho 13, 2014


Todo fim tem um começo. No caso de Phil Lynott, um dos grandes rockstars da década de 1970 e um dos maiores ídolos irlandeses da música em geral, o final teve início no rompimento familiar. Casado desde 1980 com Caroline Crowther, o relacionamento de Lynott terminou em 1984, por conta dos vícios que levariam Lynott ao caixão. Com isso, ele também foi afastado de suas filhas, Sarah e Cathleen (ambas inspiraram músicas que recebem o nome delas e estão presentes, respectivamente, nos álbuns “Black Rose: A Rock Legend”, do Thin Lizzy, e “The Phil Lynott Album”, solo).

No ano anterior, 1983, o Thin Lizzy havia acabado de uma forma nebulosa e esquisita. A banda retomou boa forma e sucesso com a entrada de John Sykes e o álbum “Thunder And Lightning”, mas o estado deplorável de Lynott e do guitarrista Scott Gorham, além das diferenças musicais entre eles, encerraram o grupo. Vale destacar que, se Lynott morreu, Gorham não se foi por sorte – estava afundado no vício como o colega.



Sem família e sem banda, Phil Lynott se afundou em heroína. Não achava que o vício iria prejudicá-lo e recusou ajuda. Psicologicamente, Lynott estava abalado com algo que ninguém consegue explicar: o Thin Lizzy fracassou. Apesar de alguns momentos de sucesso, não atingiu metade do que poderia. Talvez por saber de sua própria capacidade, Phil definitivamente não se conformou com o fim do grupo em 1983. No ano seguinte, a família já era. O que restou para Lynott? Isolamento.

GRAND LIZZY OU THIN SLAM?

Em uma tentativa por parte de Phil de retomar as atividades, o Grand Slam começou mal. A banda era formada por Lynott, John Sykes e Brian Downey. Mas demorou para engatar e Downey saiu, enquanto Sykes preferiu a oferta do Whitesnake. Robbie Brennan (bateria), Laurence Archer (guitarra), Mark Stanway (teclados) e Donal “Doish” Nagle (guitarra) passaram a integrar o grupo, que para alguns críticos era apenas uma versão malfadada do Thin Lizzy. Só convenceu depois que algumas composições de Lynott vieram a público.

Hoje é possível conferir várias demos da banda em lançamentos póstumos. A versatilidade era a marca do Grand Slam: uma pitada de funk, um pouco de hip hop, algo de new wave, mas sempre com o rock n’ roll Lizzyano e as letras perfeitas de Phil Lynott, que estava animado com o projeto. Ele queria se livrar de vez do rótulo de “Thin Lizzy secundário”.

Não conseguiu. A mídia ainda questionava o motivo do Thin Lizzy ter fracassado no objetivo de “conquistar a América” – algo que poderia ter acontecido nos tempos de “Jailbreak”, se não fossem os problemas que a banda teve com a gravadora à época. Apesar disso, o Grand Slam ia bem e conquistava público na Irlanda e no Reino Unido. Lynott buscou por um contrato com uma nova gravadora, mas ninguém queria assinar com um viciado em decadência.



Ainda motivado, Phil Lynott buscava por uma oportunidade para gravar um clipe. mas quando ele foi à Califórnia buscar algo, seus companheiros de banda haviam abandonado o Grand Slam para se dedicarem a outros projetos. O último suspiro criativo de Lynott está no single de maior sucesso de Gary Moore: “Out In The Fields”. Ambos aparecem juntos na música e no clipe, que foi responsável por colocar Moore nos holofotes de vez. Isso fez com que a gravadora Polydor oferecesse um contrato para que ele trabalhasse em mais um disco solo – seria o terceiro de sua discografia. Apesar disso, seu empresário, Chris Morrison, abandonou Lynott: ele investiu 100 mil dólares de seu próprio dinheiro no Grand Slam, que logo acabou.

LIVE AID E O BURACO

Paralelamente à parceria com Moore, Phil Lynott também trabalhou com Huey Lewis e Junior (UK), como compositor e até em duetos, que não foram lançados. Entusiasmado com a proposta da Polydor, Lynott planejava lançar seu terceiro álbum solo em 1986 – ano de sua morte. Semanas depois do contrato assinado com a Polydor, rumores de que Bob Geldof convidaria Lynott para uma reunião do Thin Lizzy no Live Aid 1985 animaram o músico. Geldof e Midge Ure, organizadores do evento, eram amigos de Phil, que os “colocou no mapa”.

O festival aconteceu e ajudou a promover o U2, banda irlandesa. Mas nada de Thin Lizzy ou Phil Lynott, que ficou chateado e, a partir daí, se afundou de vez. Ele acreditava que o sucesso do Live Aid, que ainda é citado como um dos maiores eventos da história da música, seria suficiente para fazê-lo estourar de vez.



Em entrevista, Darren Wharton relembrou o “caso Live Aid”: “Foi uma decisão trágica. Poderia ser uma recuperação para Phil, que estava com problemas com drogas. Apesar dos problemas, ele poderia ficar bem para o show. Acho que Phil nunca perdoou Bob e Midge por isso”. Durante a transmissão, Lynott estava nos estúdios da RTE, na Irlanda, inchado e muito suado. Dias depois, ele encontrou com o artista plástico e amigo Jim Fitzpatrick, que relata: “Acho que o Live Aid o destruiu. Ele era a maior estrela do rock na Irlanda e foi excluído. Não condeno ninguém, mas isso foi decisivo. Sei disso porque ele me contou”.

Afundado nas drogas, Phil Lynott tentou dar sequência aos seus planos de gravar o terceiro álbum solo, mas a heroína o deixou debilitado. Em uma viagem de família para a cidade de Marbella, Espanha, Lynott farreou e estragou o passeio. Por lá, ele também tinha um show solo agendado e convidou os músicos do Grand Slam para tocar com ele. No entanto, o show foi um desastre.

ESPERANÇA?

O produtor Paul Hardcastle tentou levantá-lo e, dessa parceria, saiu o último single de Lynott, “Nineteen”, semanas antes de sua morte. A canção chegou a ganhar um clipe, que representaria mais um momento de reabilitação de Phil. Huey Lewis também estava prestes a se lançar, com a ajuda dele. Mas a heroína impediu que ele visse a ascensão de Lewis como músico, além de seu próprio álbum solo pronto.



“Nineteen” fracassou enquanto single, por conta da reputação de Lynott como “drogado” – o momento que o Reino Unido vivia era completamente yuppie/antidrogas. Isso o fez ficar trancado em sua casa em Richmond praticamente até ser levado ao hospital onde morreu, aos 36 anos. Em entrevista, Scott Gorham descreveu a última visita a Lynott: “Ele estava gordo, com a respiração pesada e quando ele falou do futuro, pensei que só demoraria um pouco até que ele recuperasse a forma. Então batemos um papo, desejamos feliz natal um ao outro e combinamos de nos reencontrar em breve”.

ADEUS

O último natal de Phil Lynott foi caótico. O roadie de Lynott, Charlie McClellan, expôs a situação para a sua mãe, Philomena, que enfim ficou sabendo do vício do filho. Ela, finalmente, soube que Phil estava doente. Ainda com a mãe em casa, Lynott negociou drogas com um traficante até que ela flagrou o momento.

Apesar da discussão gerada pela atitude nonsense, ele consumiu a heroína que havia pegado e se juntou às filhas para abrir os presentes delas. Neste momento, ele desmaiou e foi levado às pressas para um hospital. Lynott sofreu um colapso. Estava caindo de vez. O organismo não resistiu e dez dias depois, ele faleceu, vítima de insuficiência cardíaca e pneumonia, devido a uma septicemia (infecção grave do organismo por germes) agravada pelo consumo de drogas e álcool.

Lynott é um dos casos mais evidentes de ídolo póstumo. O legado que ele deixou só passou a ter maior reconhecimento após sua morte. Ele morreu com apenas 36 anos. Poderia ter feito muito mais o que fez. E ainda tenho arrepios ao imaginar o que ele poderia ter produzido nos anos seguintes.


Igor Miranda Jornalista natural de Uberlândia (MG). Apaixonado por rock há mais de uma década, começou a escrever sobre música desde 2007, com o surgimento do saudoso blog Combe do Iommi. Co-fundou e integrou o site Van do Halen até o ano de 2013 - apesar de ainda manter uma coluna, chamada "Cabeçote" e publicada sempre nas noites de segundas-feiras. Atualmente é redator-chefe da área editorial do site Cifras, afiliado ao R7. Trabalhou como repórter do jornal Correio de Uberlândia entre 2013 e 2016.