quinta-feira, 31 de julho de 2014

Sobre camisetas de bandas em shoppings e os dogmas do rock e metal
quinta-feira, julho 31, 2014


Há dez anos, enfim, conseguia acreditar que eu era “roqueiro”. Conhecia um pouco sobre as bandas de rock que gostava, comecei a deixar o cabelo crescer, pedi uma guitarra de presente para meus pais e passava grande parte do meu tempo livre ouvindo CDs e assistindo a clipes na MTV.

Mas havia um problema muito grande: eu não me parecia com um “roqueiro”. Mal sabia que, qualquer fosse o visual escolhido, ficaria como um moleque leite-com-pera na puberdade – eu era aquilo, ora. Era difícil achar camisetas de bandas de rock e acessórios em lojas por aí. Esse problema de primeiro mundo me frustrava.

Dez anos depois, vejo muitos que passaram por esse mesmo problema com reclamações imbecis sobre o fácil acesso ao vestuário “roqueiro”. Lojas de shoppings como Riachuelo, Renner e afins lançaram coleções de camisetas estampadas com bandas de rock. Os guerreiros do undergroud, é claro, abominam: afirmam que muitas pessoas que não conhecem sobre os grupos, vão acabar passando a mensagem deles.

Grande parte das bandas famosas de rock não passa uma mensagem muito profunda ou elaborada. Quando você utiliza uma camiseta dos Rolling Stones, por exemplo, a ideia passada é que você gosta de rock. Não imagino algo que vá além disso.

Não desejo aos novos “roqueiros” a dificuldade que tive quando queria ter camisetas de rock e não as encontrava. O fato de procurar mais por uma roupa não te torna mais ou menos tr00. Não é uma prova, não é um teste, não é um batismo de fogo.

Talvez eu não fosse um doutor sobre Iron Maiden quando, com muita procura, achei uma “peita” da banda. Mas me sentia suficientemente digno de passar aquela mensagem adiante. Ou simplesmente gostava de ter o Eddie estampado na minha barriga. Acho, inclusive, que dificilmente alguém que não conheça o Maiden comprará uma vestimenta com o pouco carismático mascote. Anitta e Miley Cyrus, que ilustram o post, devem saber do que se trata.

A verdade é que os “roqueiros” que se acham “oldschool”, sempre dogmáticos, são chatos demais. Esquecem que música é diversão e passam a tratá-la como instituição intocável. Xiitas, veem o rock e o metal como algo separado da arte musical. É o mesmo pessoal chato que sai perguntando na rua se a pessoa conhece tal banda e pede para citar nomes de músicas.

E o mais importante: esquecem (ou não sabem) que bandas são marcas. Essa história de usar camiseta dos Ramones ou dos Stones (não vejo esse fenômeno de forma frequente com outros grupos) sem saber do que se trata é muito velha. Sempre vai existir. Não aconteceu graças às lojas de shopping, mas sim graças aos próprios músicos, detentores dos direitos das instituições além-música que criaram. Reclamem com eles.

Texto originalmente escrito para a coluna semanal "Cabeçote", assinada por mim no site Van do Halen.
Igor Miranda Jornalista natural de Uberlândia (MG). Apaixonado por rock há mais de uma década, começou a escrever sobre música desde 2007, com o surgimento do saudoso blog Combe do Iommi. Co-fundou e integrou o site Van do Halen até o ano de 2013 - apesar de ainda manter uma coluna, chamada "Cabeçote" e publicada sempre nas noites de segundas-feiras. Atualmente é redator-chefe da área editorial do site Cifras, afiliado ao R7. Trabalhou como repórter do jornal Correio de Uberlândia entre 2013 e 2016.