quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Zaltana, a banda que veio para ficar: entrevista com Tito Falaschi
quarta-feira, setembro 03, 2014


Zaltana: "Zaltana" (2014)
Resenha do disco e entrevista exclusiva com Tito Falaschi

O Brasil agora tem um representante de competência comprovada no metal contemporâneo: o Zaltana, grupo formado por Tito Falaschi (bateria, baixo e vocal), Mischa Marmade (vocal), Hilton Torres (guitarra e vocal) e Dann Feltrin (guitarra e vocal). O álbum de estreia, autointitulado, expressa a força e o frescor que a banda pode trazer para o cenário.

Em entrevista exclusiva ao site IgorMiranda.com.br, Tito Falaschi falou sobre a nova empreitada. Para o baterista e baixista, "melodias mais comerciais, com bases pesadas, mais de um vocal, letras que falam do cotidiano e arranjos com influências de grupos não utilizadas por outras bandas podem fazer, no final, um resultado diferenciado". De fato, isso ocorre. O Zaltana tem uma pitada dos momentos mais pesados de Iced Earth e Dream Theater, nos trabalhos mais recentes deles, além de um pouco de grupos mais contemporâneos, como Mastodon e (apenas o instrumental de) Killswitch Engage, entre outros. A duração das faixas (apenas uma faixa tem mais de 5min30seg) e o tamanho do disco (dez músicas, 45 minutos e meio) me agradam muito.


A produção do debut, assinada por ele mesmo, é um elemento de destaque no disco. Nota-se logo de cara, com a entrada da faixa de abertura "2 Can Play This Game". As guitarras bem timbradas, o baixo coeso e a bateria precisa dão a sustentação para o brilho da voz de Mischa Marmade, ora rasgada, ora melódica. A proposta é mantida em "Skullface", com um pouco mais de velocidade, versos limpos e demais momentos repletos de distorção.

"Always Left Behind", mais melódica, tem alguns elementos, especialmente nos versos e solo, que flertam levemente com o gênero que consagrou Tito Falaschi no underground: o metal melódico. "Sempre toquei outros estilos além do power, mas foi no Symbols que as pessoas me conheceram. Acredito que esse estilo esteja um pouco saturado hoje em dia", afirmou Falaschi. "Quid Pro Quo" retoma o peso elementar observado nas faixas iniciais. O refrão é muito bom. Há algumas partes com uma pegada thrash metal que pode agradar aos adeptos. O riff pesado de "Heartstrings" tem um swing intrínseco e irresistível. Ponte e refrão são afáveis e comerciais na medida certa. Os teclados ao fundo de alguns momentos são estratégicos.



Na sequência, o disco cresce muito, sempre amparado pelo peso. "Sovereign" é uma das melhores faixas do play, sem dúvidas. A ginga do riff dos versos, o refrão explosivo e especialmente o miolo com influência da música brasileira são elementos de destaque. "Terminal Speed" já começa grudenta desde o início, com um bom lick de guitarra. Ponte e refrão são muito bons, assim como o solo.

"Outliars", grande destaque do álbum, tem um dinamismo rítmico formidável. Ótima faixa, com uma pitada de influência de Iced Earth. Mischa Marmade se destaca muito pela performance. A frenética "Dukkha-Satya" fecha o disco com um trabalho instrumental impecável. Em termos de estilo, não traz nada de novo - apenas reafirma o que já foi apresentado nas outras músicas.



Obviamente, os acertos são maiores do que os detalhes a serem corrigidos. Alguns detalhes podem ser alterados para potencializar ainda mais o Zaltana nos próximos discos. Aqui, senti falta de mais solos de guitarra ao longo do play. A segunda parte do trabalho é melhor do que a primeira, por ser um pouco mais dinâmica e trazer influências um pouco mais distantes do lugar comum. Mas nada que comprometa o produto final.

Tenho a sensação de que a banda não terá muito mercado no Brasil, ainda muito ortodoxo no consumo de música pesada. Tito Falaschi discorda parcialmente de meu ponto de vista. "Acho que aqui tem muito público, mas claro que se a banda aparece fora do Brasil, dá mais credibilidade. Não que eu ache certo, mas é como funciona aqui", disse. Imagino que ter mais projeção internacional do que nacional, ainda mais nos dias de hoje, seja uma formidável vantagem. Basta trabalhar de forma certa, porque, musicalmente, acho que o Zaltana veio para ficar.

Nota 8,5

Leia a entrevista com Tito Falaschi na íntegra ao final da postagem.



Mischa Marmade (vocal)
Tito Falaschi (bateria, baixo e vocal)
Dann Feltrin (guitarra, vocal)
Hilton Torres (guitarra, vocal)

1. 2 Can Play This Game
2. Skullface
3. Always Left Behind
4. Quid Pro Quo
5. Heartstrings
6. Hungry for Life
7. Sovereign
8. Terminal Speed
9. Outliars
10. Dukkha-Satya

Entrevista exclusiva com Tito Falaschi

IGOR MIRANDA: No release da banda, li que você acredita que o Zaltana fez algo diferente do que estamos acostumados a ouvir no metal nacional. Queria que você fosse um pouco mais específico e me dissesse o que crê que há de diferente.

TITO FALASCHI: "Acredito que mesclando melodias mais comerciais, com bases pesadas, mais de um vocal, letras falando do cotidiano, de coisas reais de nossas vidas, política e arranjos com influências de bandas não utilizadas por outras podem fazer, no final, um resultado diferenciado".

Esse trabalho se distancia um pouco da proposta power trazida em outros trabalhos que você já tocou. Claro que há sons mais melódicos, mais progressivos e até alguns momentos de brasilidade, mas vertentes mais pesadas e até modernas são exploradas no Zaltana. A que isso se atribui?

"Sempre toquei outros estilos além do power, mas foi no Symbols que as pessoas me conheceram. Acredito que esse estilo esteja um pouco saturado hoje em dia. As bandas antigas têm seu mercado, mas para bandas novas acho que ficou mais difícil, por isso, quis fazer algo que atinja mais pessoas e outros mercados".

Pouco se conhecia sobre sua habilidade como baterista. Nesse projeto, você parece disposto a não abandonar as baquetas, apesar de ter também gravado o baixo deste disco. Você acredita que se encaixa melhor como baterista no Zaltana ou há algum outro motivo que justifique a mudança de posto?

"Então, sempre amei tocar batera. Nos ensaios do Mitrium, antiga banda do meu irmão, já ficava ali do lado do batera, e nas pausas eu pedia para tocar (risos). Mas era caro e não tinha condições para comprar uma bateria. Agora pude realizar esse sonho".

Todos os integrantes são ótimos no que fazem, mas a performance de Mischa Marmade me chamou a atenção. Ela consegue oscilar entre vozes melódicas e rasgadas de forma bem natural - algo difícil de constatar em uma mulher. Como tem sido esse trabalho com ela? Você acredita que a presença de uma cantora, mulher, em uma banda de sonoridade agressiva, traz que tipo de diferencial?

"Acho que a Mischa tem um lance diferente. O fato de ser mulher não é o fator diferencial, mas sim todas as qualidades de um vocal, que é o maior diferencial de uma banda, Não lembro de uma vocalista com esses timbres dela, sem contar que ela manda muito. Outro fator é o inglês. Na maioria das bandas tem muito sotaque e isso atrapalha as bandas daqui, mas ela fala como um gringo, aliás, foram palavras deles (gringos). Ela é fluente na língua e isso diferencia demais. O visual também é muito bom, adoro a voz dela, além de sermos grandes amigos".

Você acha que o Brasil ainda tem mercado para consumir um bom trabalho como o do Zaltana, ou é necessário observar e investir em outros territórios?

"Acho que aqui tem muito público, mas claro que se a banda aparece fora do Brasil, dá mais credibilidade. Não que eu ache certo, mas é como funciona aqui".

Uma brecha para concluir essa entrevista: você pensa em algum retorno do Symbols, algum dia? Sei que você está com o Zaltana e tem o trabalho como produtor, mas há alguma conversa para algo, mesmo que um show de reunião como o de 2012?

"Nada é impossível. Mas o baterista mora no Estados Unidos e só seria legal se fosse com todos músicos originais, então é difícil. Mas quem sabe isso acontece no futuro (risos)".


Igor Miranda Jornalista natural de Uberlândia (MG). Apaixonado por rock há mais de uma década, começou a escrever sobre música desde 2007, com o surgimento do saudoso blog Combe do Iommi. Co-fundou e integrou o site Van do Halen até o ano de 2013 - apesar de ainda manter uma coluna, chamada "Cabeçote" e publicada sempre nas noites de segundas-feiras. Atualmente é redator-chefe da área editorial do site Cifras, afiliado ao R7. Trabalhou como repórter do jornal Correio de Uberlândia entre 2013 e 2016.