domingo, 16 de novembro de 2014

Cerrado turbinado: com muito rock n' roll, quatro bandas goianas fizeram ótimo evento em Uberlândia
domingo, novembro 16, 2014

Rock na Estrada: Porão Cultural, Uberlândia, MG (14/11/2014)
Atrações: Girlie Hell, The Galo Power, Damn Stoned Birds e Coletivo Sui Generis

O Rock na Estrada tem uma proposta ousada. Ainda mais com a atual situação do rock, em que muitos grupos não conseguem (ou têm medo de) apostar, se arriscar e, especialmente, viver a música por mais do que um final de semana. As bandas Girlie Hell, The Galo Power, Damn Stoned Birds e Coletivo Sui Generis, todas de Goiânia (GO), se juntaram em um ônibus e, neste momento, excursionam por algumas cidades do sudeste, em uma iniciativa do selo Monstro Discos, com apresentações recheadas de som próprio e criativo.

A primeira parada das bandas aconteceu nesta sexta-feira (14), no Porão Cultural de Uberlândia, Minas Gerais. Neste sábado (15), passaram por Uberaba, ainda em Minas, e depois ficam até dia 23 no estado de São Paulo, com shows em Jundiaí, Limeira, Pirassununga, Araraquara e na capital. São 2.800 quilômetros percorridos no total.

Infelizmente, a iniciativa não atraiu público em Uberlândia. Trato deste problema de forma mais específica ao final do texto. Apesar disso, os shows foram, no geral, impecáveis. Boas bandas, som legal, fotógrafo e vendedor de CDs à disposição. Só faltou gente para curtir. Preferi cobrir as apresentações sem pesquisar sobre as bandas que eu não conhecia, Damn Stoned Birds e Coletivo Sui Generis. Já escrevi sobre as outras duas, Girlie Hell (resenha) e The Galo Power (entrevista).

Coletivo Sui Generis

A atitude me rendeu uma imensa surpresa especialmente em relação à primeira atração, Coletivo Sui Generis. A banda mais diferente do line-up mistura hip hop com uma espécie de rock/metal contemporâneo e muito pesado. O misto é aliado a letras ácidas e bem trabalhadas. Com destaques ao instrumental afiado, às aparições esporádicas do DJ e à divisão entre os dois vocalistas (um para o rap e outro para o screamo), o sexteto fez bonito. Um soco no estômago. O Rock na Estrada começou bem.

Na sequência, o Damn Stoned Birds apresentou o que o nome já sugere: stoner rock, estilo que, diga-se de passagem, tem ótimos representantes em terras goianas. A crueza excessiva da banda, muito distorcida e pouco técnica, ressalta a filosofia "do it yourself", presente em todo o rock n' roll. No entanto, a configuração de trio do grupo não me pareceu ideal. O guitarrista Danilo Miranda e a baixista Joyce War dividem os vocais, com maior parte deles a cargo de Miranda. Mas nenhum deles mandou bem, apesar do instrumental sólido. Razoável, o show mostrou que o Damn Stoned Birds, ao menos, tem potencial para evoluir.

Damn Stoned Birds

A melhor atração da noite, sob meu ponto de vista, foi o The Galo Power. Cumpriram as minhas expectativas com um hard rock poderoso, que bebe na fonte de nomes das décadas de 1960 e 1970, como Deep Purple, Cream e Jimi Hendrix Experience, entre outros. Ao vivo, soa ainda mais forte, especialmente pela cozinha de Rodolpho Gomes (baixo) e Evandro Galo (bateria). Entre os quatro grupos que se apresentaram, é, sem dúvidas, o mais entrosado e consciente do que faz. O quarteto está pronto para explodir no underground brasileiro.

The Galo Power

O encerramento ficou a cargo do Girlie Hell. O quarteto, formado apenas por mulheres, não me chamou a atenção anteriormente pelo motivo óbvio (grupo somente com integrantes do sexo feminino em um estilo musical altamente machista), mas sim pelo investimento de suas gravações, com ótima produção, e seus videoclipes bem trabalhados. Apesar disso, o som não me pegou no disco e menos ainda ao vivo. Os vocais não são desafinados, mas são apenas normais. Os ganchos melódicos não grudam. A banda não transmite a confiança nem a energia que parece ter nas gravações. É claro que nada disso interfere em um futuro promissor do grupo, porque as garotas tocam bem e sabem trabalhar, visto o patamar que já alcançaram em termos de publicidade virtual. Mas a apresentação me passou despercebida.

Girlie Hell

O saldo geral da parada do Rock na Estrada em Uberlândia é positivo. Como em toda turnê, os últimos shows devem ser bem melhores que o primeiro. A ousadia das quatro bandas em colocarem o pé na rodovia para tocarem som próprio já é digna de aplausos. Da forma que se apresentaram, então, melhor ainda. Aos leitores que puderem presenciar alguma das apresentações (clique aqui para conferir as datas), digo que vale a pena.

ROCK AUTORAL EM UBERLÂNDIA "RESPIRA COM AJUDA DE APARELHOS"

É lamentável que o público do Rock na Estrada em Uberlândia tenha sido tão abaixo do esperado. Sorte de quem esteve no Porão Cultural, mas azar das bandas, que poderiam ter apresentado seus sons para mais pessoas. A situação do rock na cidade, com exceção das casas que recebem atrações responsáveis por tocarem covers, é triste. Pode ser que a divulgação do evento não tenha sido tão efetiva, mas não creio que isso justifique a falta de presentes.

Não é minha função exercer qualquer tipo de patrulha ideológica. Cada um faz o que quer. No entanto, a atitude deve ser correspondente ao discurso. O underground é visto como um movimento, mas nem sempre encarado por seus supostos participantes como tal. Há muitos "guerreiros do underground" em Uberlândia que fazem militância pelo movimento, mas vi dezenas desses, em uma volta antes de entrar no Porão Cultural, dentro de/prestes a entrar em outros estabelecimentos do centro da cidade. Só aparecem no show da própria banda.

Não me sinto necessariamente parte do underground, porque também deixo de ir a alguns shows por variados motivos: de compromissos anteriormente marcados a falta de interesse. O país é livre. Só não dá para chegar com conversinha de que "apoia o underground" de braços cruzados.
Igor Miranda Jornalista natural de Uberlândia (MG). Apaixonado por rock há mais de uma década, começou a escrever sobre música desde 2007, com o surgimento do saudoso blog Combe do Iommi. Co-fundou e integrou o site Van do Halen até o ano de 2013 - apesar de ainda manter uma coluna, chamada "Cabeçote" e publicada sempre nas noites de segundas-feiras. Atualmente é redator-chefe da área editorial do site Cifras, afiliado ao R7. Trabalhou como repórter do jornal Correio de Uberlândia entre 2013 e 2016.