terça-feira, 31 de março de 2015

Hibridismo, o sobrenome do disco de estreia de Michelle Abu
terça-feira, março 31, 2015


Michelle Abu - #1 (2014)

Considerada uma das grandes percussionistas do Brasil, Michelle Abu já tocou com nomes do porte de Arnaldo Antunes, Ira!, Edgar Scandurra, Caetano Veloso, Vanessa da Matta, Erasmo Carlos, entre outros. Com outras competências instrumentais, a baiana decidiu trabalhar em sua carreira solo, com um disco autoral intitulado "#1".

No trabalho de estreia de Michelle Abu, onde ela assume vocais, guitarra, bateria e outros instrumentos - praticamente tudo ao lado de Cássio Calazans -, há um hibridismo interessante que deveria ser mais empregado no rock nacional. O estilo norte-americano se mistura com elementos nacionais, com foco especial na rítmica, o que seria natural de alguém com o background de Michelle.

A faixa de abertura, "Classificados", apresenta uma característica interessante: a busca pelas texturas musicais, com várias camadas sonoras registradas e bem distribuídas pela produção. Faltou um momento mais explosivo, um refrão com cara de refrão, mas a construção instrumental compensa a ausência do gancho. "Desespero", mais tímida e alternativa, tem uma pegada rítmica tipicamente brazuca que apresenta as credenciais de Michelle Abu como baterista. A participação de Edgar Scandurra nas guitarras deu um bom diferencial.



"Ser de ninguém" mergulha no rock alternativo, estilo que recebe flertes em vários momentos do trabalho. Boa faixa. A volátil "Gangorra" tem passagens instrumentais distintas e só deixa a desejar pela ausência de uma performance mais explosiva de Michelle Abu nos vocais. A balada "Leve seu cão pra pensar" tem uma bela estética até a entrada da guitarra. Depois, fica monótona.

Ainda sem o pé no acelerador, "Cada segundo" é mais interessante que a anterior. A faixa tem uma mistura ponderada de elementos do folk e country a características de sangue da música brasileira, além de, enfim, um bom refrão. De melodia levemente intragável, "Cidade cinza" se destaca pela boa letra, que dialoga com a situação de algumas metrópoles brasileiras. "Ponto final" também tem boa composição lírica, além de um andamento instrumental gostoso e esporádicas trilhas de guitarra inspiradas na surf music.



Próxima do fim, a faixa "Igual" é uma das mais fracas do álbum, em função das guitarras mal colocadas, que prejudicaram, além do refrão, outros momentos isolados. Faixa mais longa do disco com 5 minutos e meio de duração, "Filha de pai" tem um groove forte graças à boa parceria entre baixo e bateria. É, ao mesmo tempo, meio funk e meio psicodélica. Um dos destaques.

Alguns dos momentos mostram que esse hibridismo, tão notável no som de Michelle Abu, nem sempre dá certo. A falta de refrães em alguns momentos torna a audição menos afável a um resultado comercial, além de mostrar pretensiosidade excessiva onde não deveria haver - afinal, abre-se mão de refrães em algumas faixas somente quando são boas demais para precisar de tal estrutura.



No entanto, o saldo geral é positivo. "#1" mostra boas canções e ótimas letras, cria expectativa para um futuro trabalho e dá esperanças de que novos trabalhos nacionais mesclem mais o rock com outros gêneros.

Nota 8

01. Classificados
02. Desespero
03. Ser de ninguém
04. Gangorra
05. Leve seu cão pra pensar
06. Cada segundo
07. Cidade cinza
08. Ponto final
09. Igual
10. Filha de pai

Show

Michelle Abu apresenta seu novo disco, "#1", em show no Sesc Consolação, de São Paulo (SP), na próxima sexta-feira (10). Confira mais informações abaixo:

Michelle Abu @ Sesc Consolação

Data: 10/04/2015 (sexta-feira)
Horário: 21h
Local: Rua Dr. Vila Nova, 245 - Vila Buarque
Ingressos à venda nas unidades do Sesc:

R$30 (inteira)
R$15 (meia)
R$9 (credencial plena do SESC)



Igor Miranda Jornalista natural de Uberlândia (MG). Apaixonado por rock há mais de uma década, começou a escrever sobre música desde 2007, com o surgimento do saudoso blog Combe do Iommi. Co-fundou e integrou o site Van do Halen até o ano de 2013 - apesar de ainda manter uma coluna, chamada "Cabeçote" e publicada sempre nas noites de segundas-feiras. Atualmente é redator-chefe da área editorial do site Cifras, afiliado ao R7. Trabalhou como repórter do jornal Correio de Uberlândia entre 2013 e 2016.