terça-feira, 21 de julho de 2015

Documentário desvenda produção de "Paêbirú", disco mais caro do Brasil
terça-feira, julho 21, 2015


Um disco lançado em 1975 que, hoje em dia, em uma cópia original e conservada, vale cerca de R$ 4 mil – é, de acordo com colecionadores, o álbum mais caro da música brasileira. Este é “Paêbirú”, de Lula Côrtes, falecido em 2011, e Zé Ramalho: um dos trabalhos mais curiosos do cenário nacional. Repleto de místicas e peculiaridades, trata-se de um dos marcos iniciais da psicodelia no país.

Instigados pela curiosidade que o álbum gera em pesquisadores e amantes da música brasileira, os cineastas Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim dirigiram e produziram o documentário “Nas paredes da pedra encantada” (Monstro Filmes, DVD, R$ 30). Nas filmagens, feitas em formato “road movie” (gênero no qual os envolvidos viajam para diversas partes durante o processo), Lula Côrtes é levado para Ingá, no agreste da Paraíba, onde está a Pedra de Ingá, monumento arqueológico que inspirou a criação de “Paêbirú”.

Em entrevista exclusiva, Leonardo Bomfim afirmou que “Nas paredes da pedra encantada” seria, na verdade, uma reportagem sobre o álbum para a revista Rolling Stone, feita por Cristiano Bastos. “Ele percebeu que a história renderia mais do que uma reportagem e então pensou em um filme. Foi aí que surgiu o convite para que eu entrasse na história”, disse.

De acordo com Leonardo Bomfim, os depoimentos de Lula Côrtes conduziam a Kombi que os levavam aos destinos das filmagens. “As histórias dele, ao longo da viagem, seriam o nosso norte. E aí surgem as outras figuras importantes. Nossa ideia não era encher o filme de gente, como é comum em documentários”, disse o cineasta.

Assista ao trailer de “Nas paredes da pedra encantada”:



Despedida

Lula Côrtes não pôde conferir “Nas paredes da pedra encantada”. O músico morreu em 26 de março de 2011, vítima de um câncer na garganta, pouco antes do filme estrear no circuito independente (o documentário chegou ao formato de DVD posteriormente). Leonardo Bomfim imagina que Côrtes teria aprovado o resultado final. “A gente acabou fazendo um filme sobre ele, até mais do que sobre o disco. É um documentário sobre um momento específico da vida do artista, no fim, os últimos anos. Mas é maravilhoso, porque mostra esse humor, essa sensibilidade, mas também a porra-louquice, o jeito dele de viver”, disse.


Peculiaridades

“Paêbirú” não é um disco de fácil assimilação. O álbum mistura elementos do rock psicodélico e do jazz a ritmos brasileiros, especialmente nordestinos. Mas a fusão tornou o álbum pioneiro tanto no cenário da psicodelia nacional quanto na mistura entre gêneros consagrados no exterior com gêneros do Nordeste.

O primeiro contato do cineasta Leonardo Bomfim com “Paêbirú” aconteceu, de acordo com ele, quando realizava uma pesquisa sobre a música psicodélica brasileira. “O disco sempre me chamou atenção pela singularidade. Em meados dos anos 70, não há nada muito parecido no Brasil. O momento já era outro. Mas eu admito que a realização do filme, a proximidade com as pessoas, me fez realmente gostar e entender aquela loucura toda”, afirmou.

Poucos convidados

O documentário “Nas paredes da pedra encantada” é marcado por ter muitos depoimentos de poucas fontes. Convidados como Alceu Valença e Lailson de Holanda, entre outros, deram suas visões sobre o álbum, a época e o cenário local, que concebia uma espécie de versão brasileira da psicodelia.

A opção de trazer poucos entrevistados e aprofundar nos depoimentos foi dos próprios cineastas, Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim. “Nossa ideia não era encher o filme de gente, como é comum em documentários. Melhor ter poucas pessoas falando bastante, dando sua visão completa sobre o período, do que vários depoimentos cortados que nunca se completam”, disse Bomfim.

Disco “maldito”

A edição original de “Paêbirú” é o disco mais caro da história da música nacional por ser raríssimo. Das 1.300 cópias inicialmente prensadas, 1.000 delas foram levadas por um dilúvio que varreu Recife, capital de Pernambuco e local das gravações do álbum, em 1975. A fita máster também foi embora.

O dilúvio deu um aspecto cult para o álbum, mas também trouxe um ar “maldito”, porque frustrou as expectativas dos envolvidos. Hoje, de acordo com o cineasta Leonardo Bomfim, o disco virou “algo do passado” para quem acompanhou o processo de gravação. “Eles não gostam tanto de falar sobre ele”, afirmou. Ainda segundo Bomfim, os convidados que dão depoimentos para o documentário tiveram mais interesse em participar pela figura de Lula Côrtes do que por “Paêbirú”.

Ouça o álbum “Paêbiru”:



Ficha técnica – documentário “Nas paredes da pedra encantada”
  • Direção e produção: Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim
  • Imagens: Rafael Cabral, Oscar Malta e Adelino Jr
  • Montagem: Emanuela Campos
  • Som direto: Herivelton Santos
  • Correção de som: Juan Acosta
  • Assistentes de produção: Nemo Augusto, Luiz Manghi e Julia Claudino
  • Produção de set: Juliana Fittipaldi
  • Still: Flora Pimentel, Ricardo Moura
DVD
  • Produção: Monstro Filmes
  • Produção executiva: Márcio Jr, Adérito Schneider e Leo Bigode
  • Autoração e legendas: Bruno Fiorese e Lucas Mariano (Saraivada produções culturais)
  • Arte: Wesley Rodrigues
  • Design: Danilo Itty
  • Logo: Nik Neves
Igor Miranda Jornalista natural de Uberlândia (MG). Apaixonado por rock há mais de uma década, começou a escrever sobre música desde 2007, com o surgimento do saudoso blog Combe do Iommi. Co-fundou e integrou o site Van do Halen até o ano de 2013 - apesar de ainda manter uma coluna, chamada "Cabeçote" e publicada sempre nas noites de segundas-feiras. Atualmente é redator-chefe da área editorial do site Cifras, afiliado ao R7. Trabalhou como repórter do jornal Correio de Uberlândia entre 2013 e 2016.