quinta-feira, 2 de julho de 2015

Opinião: sobre Cristiano Araújo, há de se discordar, sim, de Zeca Camargo
quinta-feira, julho 02, 2015


Zeca Camargo, jornalista e apresentador da TV Globo, não aliviou nas críticas feitas à repercussão da morte do cantor Cristiano Araújo, sobretudo na televisão. Curiosamente, a emissora pela qual trabalha acabou estendendo a sua cobertura e se equiparou às rivais no sinal aberto, Band, SBT e, especialmente, Record. Quase uma autocrítica.

Ao longo de sua crônica, exibida pelo Jornal das Dez, do canal fechado Globo News, Zeca Camargo disse que muitos estranharam a "comoção repentina" pelo trágico falecimento, atribuída pela carência de "referências culturais" nos dias de hoje. O jornalista chegou a comparar a repercussão da morte de Cristiano Araújo com a de nomes como Mamonas Assassinas, Cazuza e Michael Jackson. Disse, ainda, que o Brasil precisa de "novos heróis", entre outras bobagens.

Zeca Camargo, recomendo que faça aquilo que um jornalista deveria fazer: apuração. Não precisa ser fã de sertanejo (como não sou) para saber que Cristiano Araújo foi um dos grandes nomes do segmento mais recente, ao lado de Michel Teló, Luan Santana, Gusttavo Lima e Lucas Lucco. Levou multidões para seus shows, vendeu milhões de cópias de seus discos e tem números expressivos registrados em seu material divulgado em meios virtuais. São dados, não especulações, que abrangem todo o Brasil e não apenas um eixo Rio-São Paulo.

A questão é que o sertanejo sofre, desde sempre, uma espécie de "segregação cultural". Os nomes tradicionais do segmento, como Milionário & José Rico, Cascatinha & Inhana e Palmeira e Biá, entre outros, começaram cantando em circos, porque não tinham espaços nem mesmo em palcos convencionais. Demorou muito para o gênero conquistar repercussão, mas, há algumas décadas, é parte da música popular brasileira. Ainda assim, torna-se praticamente um crime colocar esse gênero como MPB. Como assim? MPB não é um estilo fechado. Se vende milhões e arrasta milhares de pessoas, está dentro da música popular brasileira.



Cristiano Araújo pode não ter sido muito conhecido em algumas regiões do país. Assim como há quem não conheça Lucas Lucco e Gusttavo Lima. Luan Santana e Michel Teló se tornaram famosos até internacionalmente - especialmente o último, um dos poucos artistas a atingir a Billboard Hot 100, principal parada de sucessos dos Estados Unidos. O Brasil é um país muito heterogêneo e permite essas peculiaridades.

No entanto, Araújo caminhava para isso. Jamais seria unanimidade, assim como nada no mundo artístico é. O encerramento dessa trajetória tem tons de tragédia: foi em um acidente de carro que morreu o cantor, de apenas 29 anos e somente quatro discos lançados (três ao vivo, um de estúdio), ao lado de sua namorada, dez anos mais jovem. Algo semelhante à já citada banda Mamonas Assassinas ou ao cantor João Paulo, da dupla com Daniel.

Não foi necessário que a fama de Cristiano Araújo percorresse todo o Brasil para que acontecesse a comoção nacional. Não dá para dizer, também, que alguns milhões de pessoas não poderiam considerá-lo um ídolo (ou "herói", termo exagerado utilizado por Zeca Camargo), nem que emocionasse outras milhões que souberam do caso, só por causa do estilo musical adotado em sua carreira.

Talvez, se o falecido artista não cantasse sertanejo universitário, a repercussão da morte não incomodasse uma porção de pessoas adeptas de certo elitismo cultural. No entanto, certamente, se o alcance de Cristiano Araújo e de seu estilo musical não fossem tão grandes como muitos (ainda) duvidam, provavelmente esse falecimento passaria batido pela mídia.
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Igor Miranda Jornalista natural de Uberlândia (MG). Apaixonado por rock há mais de uma década, começou a escrever sobre música desde 2007, com o surgimento do saudoso blog Combe do Iommi. Co-fundou e integrou o site Van do Halen até o ano de 2013 - apesar de ainda manter uma coluna, chamada "Cabeçote" e publicada sempre nas noites de segundas-feiras. Atualmente é redator-chefe da área editorial do site Cifras, afiliado ao R7. Trabalhou como repórter do jornal Correio de Uberlândia entre 2013 e 2016.