segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

30 anos sem o subestimado Phil Lynott
segunda-feira, janeiro 04, 2016


Phil Lynott passou um pouco da conta do clube dos 27. Caso morresse na icônica idade, teria feito o suficiente: no segundo semestre de 1977, o Thin Lizzy já havia gravado álbuns como “Jailbreak” e “Johnny The Fox” (ambos de 1976) e registrado “Bad Reputation”, lançado em setembro de 1977. O esmagador ao vivo “Live And Dangerous”, que chegou às prateleiras em 1978 com gravações dos dois anos anteriores, poderia fechar a cereja do bolo e consagrar, de vez, Lynott como um grande ídolo do rock.

A história, porém, não canonizou Phil Lynott no que diz respeito à construção de um mártir. No período do auge do Thin Lizzy, conquistado com “Live And Dangerous”, o guitarrista Brian Robertson saiu da banda. O reforço era um velho conhecido, mas não deixava de ser uma “contratação de peso”: Gary Moore, um dos melhores guitarristas que já pisaram por esse planeta, substituiu Robertson. O grupo lançou “Black Rose: A Rock Legend” em 1979, ainda desfrutando de seu melhor momento.


Os anos 1980 chegaram e, com isso, a decadência. Os álbuns “Chinatown”, “Renegade” e (o ótimo) “Thunder And Lightning” afastaram o Thin Lizzy dos Estados Unidos, principal mercado fonográfico do mundo. As adversidades chegaram e os vícios de Phil Lynott em álcool e drogas se acentuaram.

Esperava-se que Phil Lynott fosse acostumado a adversidades, por tudo que passou nos anos 1950 e 1960. Sua trajetória na infância e adolescência, aliás, reflete a dureza do roqueiro no qual se transformou. Nascido na Inglaterra, Lynott foi filho de uma mulher irlandesa e de um homem da Guiana (à época, Guiana Inglesa). Praticamente não teve relação com o pai. Mudou-se para a Irlanda com a avó, aos quatro anos. Em um país pouco miscigenado, de grande maioria branca e conservadora, Phil cresceu como um degenerado.

Não ligava. Ao menos segundo Scott Gorham, em entrevista concedida anos atrás. “Nunca o ouvi reclamar sobre isso [ser um negro em um país de maioria branca]. Acho que ele já tinha em mente que era diferente e que lidaria com isso. Foi o que fez”, disse.


A partir dos anos 1960, dedicou-se à música. Inicialmente influenciado por grupos como The Mamas & The Papas e artistas da Motown, começou a envolver-se com bandas a partir de 1965. Passeou entre vários projetos até consolidar o Thin Lizzy, em meados de 1969, com Eric Bell e o velho conhecido Brian Downey.

Até o Thin Lizzy se consagrar com a icônica versão para “Whiskey In The Jar”, em 1973, Phil Lynott quase desistiu do projeto para apostar em uma nova banda com Ritchie Blackmore e Ian Paice, ambos do Deep Purple, no ano anterior. Valeu a pena ficar – os álbuns do Lizzy são o reflexo da genialidade de Lynott, que ia além do trivial em seu trabalho, seja pelas melodias pulsantes ou pelas letras muito bem escritas.

O auge do Thin Lizzy durou pouco, mas Phil Lynott e sua trupe deixaram uma série de discos que trouxeram uma mistura irresistível de swing e peso. Nomes consagrados do heavy metal, como Metallica e Iron Maiden, se revelam influenciados pelo grupo.


Mesmo tendo passado por muitas dificuldades até chegar ao estrelato, a década de 1980 levou Phil Lynott do fracasso ao colapso – literalmente, pois, em 1986, sofreu um colapso e morreu em 4 de janeiro de 1986, há 30 anos, vítima de insuficiência cardíaca e pneumonia, devido a uma septicemia (infecção grave do organismo por germes). Dissequei os últimos dias de Lynott em outro texto, que também merece sua leitura.

Para que o mártir fosse construído, Phil Lynott deveria ter morrido quase dez anos antes. Sairia de cena no auge e consolidaria o seu trabalho, algo que levou a sério até que sua saúde não permitisse mais. É muito provável que, em função disso, Lynott não seja enxergado como um mito dentro do rock.

Gostaria, porém, que Phil Lynott pudesse ter vivido por mais tempo. Com a cabeça equilibrada, não duvido que voltasse anos depois com trabalhos arrebatadores, como fizeram nomes do porte de Aerosmith, Alice Cooper e outros monstros da década de 1970 que se afundaram após alguns anos no auge. Resta imaginar.
Igor Miranda Jornalista natural de Uberlândia (MG). Apaixonado por rock há mais de uma década, começou a escrever sobre música desde 2007, com o surgimento do saudoso blog Combe do Iommi. Co-fundou e integrou o site Van do Halen até o ano de 2013 - apesar de ainda manter uma coluna, chamada "Cabeçote" e publicada sempre nas noites de segundas-feiras. Atualmente é redator-chefe da área editorial do site Cifras, afiliado ao R7. Trabalhou como repórter do jornal Correio de Uberlândia entre 2013 e 2016.