terça-feira, 22 de março de 2016

“1987”, o disco do Whitesnake que tinha tudo para dar errado
terça-feira, março 22, 2016


O Whitesnake trilhou um caminho diferente de boa parte das grandes bandas de rock. O projeto, formado por David Coverdale em 1978, demorou para engrenar, tanto em conceito artístico quanto em êxito comercial. O sucesso, porém, ficou restrito ao Reino Unido e alguns países europeus até 1983.

Com “Slide It In”, em 1984, o mercado se expandiu. Um bom contrato com a Geffen nos Estados Unidos fez com que o grupo tivesse repercussão por ali. O convite para tocar no Rock In Rio, no início de 1985, também veio em bom momento: desde então, o nome do Whitesnake se firmou em território brasileiro.


Na tentativa de emplacar o Whitesnake, não só a concepção musical, mais orientada ao rock praticado nos Estados Unidos, mudou: a formação também passou por alterações e se firmou com John Sykes na guitarra, Neil Murray no baixo e Cozy Powell na bateria, além, é claro, de David Coverdale nos vocais. O problema é que a line-up responsável por alguns shows da turnê de “Slide It In” – incluindo no Rock In Rio de 1985 – também não durou muito, já que Powell logo saiu.

A instabilidade na formação poderia ser o primeiro motivo a contribuir para que “1987”, ainda em seu período de gestação, fosse um projeto fracassado. A ideia era apostar de vez no hair metal e, para substituir Cozy Powell, David Coverdale escalou Aysnley Dunbar. Mais velha guarda impossível: Dunbar já era um músico de extenso currículo, notável por ter tocado com nomes como Journey, John Mayall & the Bluesbreakers, Frank Zappa, David Bowie e muitos outros. Nenhum trabalho, porém, semelhante com a aposta de Coverdale.


Curiosamente, deu certo. Assim como Neil Murray, mantido até o fim das gravações. O topa-tudo Don Airey completou a formação nos teclados e David Coverdale assumiu a linha de frente com o guitarrista John Sykes. Outro motivo para não funcionar: os gênios fortes de Coverdale e Sykes. Por sorte – e competência –, a dupla se entendeu e, ainda em 1985, fez uma parceria tão poderosa que, com exceção das reaproveitadas “Crying In The Rain” e “Here I Go Again”, todas as músicas de “1987” foram compostas por eles.

Sorte – e competência – de novo foi John Sykes ter entendido o conceito já desenvolvido em “Slide It In”, disco no qual ele apenas regravou guitarras para a versão americana. E, por mais que seja um músico fora de série, Sykes jamais conseguiu acertar o ponto novamente.

Com a formação em frangalhos e dois músicos de estúdio ocupando as vagas, o que mais poderia dar problemas? Isso mesmo: a voz de David Coverdale. Depois de ter que chamar Bob Rock para ajudar a encontrar o timbre de guitarra que John Sykes queria – e isso demorou –, Coverdale sofreu com uma crise de sinusite e precisou ser operado para ficar bem. O cantor ficou seis meses afastado até ficar liberado para, enfim, gravar as vozes do álbum.


O vocalista, porém, relata que o Whitesnake estava sendo tocado adiante sem ele (!) e horários no estúdio estavam sendo agendados sem seu conhecimento. Primeiro, o produtor Mike Stone foi dispensado e Ron Nevison foi contratado para gravar as trilhas vocais. Depois, John Sykes foi demitido por estar envolvido nesse rolo. Adrian Vandenberg foi contratado e ainda precisou gravar o solo da nova versão de “Here I Go Again”.

Musicalmente, nada deu errado. “1987” parece ter sido gravado pela mesma banda e por músicos que tocam juntos há décadas. O entrosamento é incrível. Mas não há sequer uma foto de divulgação que reúna, pelo menos, David Coverdale, John Sykes, Neil Murray e Aynsley Dunbar.

Vivian Campbell, Tommy Aldridge, Rudy Sarzo, David Coverdale, Adrian Vandenberg, formação responsável pela turnê de 1987
“1987” deveria, na verdade, ter recebido a alcunha de “1986”. Só foi lançado atrasado por conta de todos esses problemas. Poderia, ainda, ter tido um desempenho comercial abaixo da média, visto que o mercado de bandas de hair metal, muitas vezes, foi ingrato com nomes europeus. No entanto, foi um sucesso de vendas em dezenas de países, incluindo o local que David Coverdale tanto almejava: os Estados Unidos.

O resto é história. Uma história conturbada, diga-se de passagem. Coverdale jamais conseguiu fazer um disco tão bom, repetir tamanho sucesso e até mesmo seguir com a banda até os anos 2000. As atividades do Whitesnake foram encerradas pela primeira vez após a turnê do disco seguinte, “Slip Of The Tongue” (1989), novamente depois de mudanças na formação e um Steve Vai já rodado nas guitarras.

Instável, o grupo – leia-se David Coverdale e Adrian Vandeberg – se reuniu em 1994 e em 1997, com direito a um novo álbum, “Restless Heart”, até voltar de vez em 2002. Somente em 2008, “Good To Be Bad” voltou a apresentar o Whitesnake como uma banda de verdade, sem músicos de estúdio. Ainda assim, “1987” prova duas coisas: tudo pode dar certo e nem todo disco de rock gravado fora do conceito de banda fracassa.

Igor Miranda Jornalista natural de Uberlândia (MG). Apaixonado por rock há mais de uma década, começou a escrever sobre música desde 2007, com o surgimento do saudoso blog Combe do Iommi. Co-fundou e integrou o site Van do Halen até o ano de 2013 - apesar de ainda manter uma coluna, chamada "Cabeçote" e publicada sempre nas noites de segundas-feiras. Atualmente é redator-chefe da área editorial do site Cifras, afiliado ao R7. Trabalhou como repórter do jornal Correio de Uberlândia entre 2013 e 2016.