quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

20 anos sem Chico Science, a referência do manguebeat
quinta-feira, fevereiro 02, 2017


A morte de Chico Science, que completa 20 anos nesta data, me lembra, um pouco, a de Kurt Cobain. Obviamente, não pelas circunstâncias: o líder do Nirvana cometeu suicídio, enquanto o cantor da Nação Zumbi foi vítima de um acidente de carro, enquanto viajava de Olinda ao Recife, em Pernambuco.

Suas mortes ocorreram cedo demais (Kurt tinha 27 anos e Chico, 30). Ambos tinham, criativamente, muita lenha para queimar. Além disso, o falecimento desses dois ícones fez com que seus respectivos gêneros (grunge e manguebeat) não se segurassem em popularidade, a partir de seus outros representantes.


Eles também se parecem em trajetórias. Ambos vieram de locais distantes dos principais "centros criativos" de seus países (Seattle e Pernambuco), emergiram na década de 1990 e protagonizaram a popularização de novas estéticas musicais.

Mas Chico Science consegue ir um pouco além. Carregado de fortes ideologias e distintas influências, protagonizou não só a popularização, como, também, a própria concepção do manguebeat. O gênero, disseminado no Brasil na década de 1990, mistura gêneros internacionais, como rock, hip hop, black music e funk rock a ritmos regionais, como maracatu e frevo.


O manguebeat foi como uma evolução musical de uma peculiar sonoridade desenvolvida por nomes como Novos Baianos, Robertinho de Recife e outros. Na década de 1980, tal pegada foi abandonada por novas bandas - e gravadoras - para a aposta nos excessos padronizados daquela época. Trocou-se o swing pelos sintetizadores, o brasileiro pelo globalizado e o tempero regional pelo enlatado musical.

A década de 1990 foi marcada pelo resgate do regional na música popular. O manguebeat, disseminado por grupos como Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Mestre Ambrósio e outros, apareceu de carona. Além disso, bandas de outros gêneros também beberam dessa fonte - de Skank a Sepultura, passando por Planet Hemp, Charlie Brown Jr e mais.


Duas bandas de manguebeat, em especial, fizeram sucesso fora do circuito nordestino: Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. O grupo de Science voou ainda mais alto. Seus dois álbuns de estúdio, "Da lama ao caos" (1994) e "Afrociberdelia" (1996), obtiveram boas vendas e conquistaram disco de ouro no Brasil. Houve, ainda, o reconhecimento da crítica e de outros grupos, como citado anteriormente. Não era para menos: esse par de discos continha um material diferenciado.

Atentar-se às datas é algo essencial para entender a dimensão da morte de Chico Science. O primeiro disco da Nação Zumbi saiu em abril de 1994 e Science faleceu em 2 de fevereiro de 1997. Foram menos de três anos de sucesso em dimensões nacionais.


Na época da morte de Chico Science, a Nação Zumbi planejava sua terceira turnê internacional, por Estados Unidos e Europa. O grupo divulgava "Afrociberdelia", seu segundo disco de estúdio. Science, Nação, manguebeat... era tudo muito novo.

Infelizmente, assim como quando Kurt Cobain "matou" o grunge, comercialmente, ao tirar a própria vida, Chico Science levou, para a sua cova, o estilo musical que ajudou a difundir. A Nação Zumbi seguiu com Jorge Du Peixe nos vocais, mas nunca mais repetiu o sucesso nacional conquistado com Science. Os demais grupos do movimento se contentaram com o underground, com alguns deixando de existir com o passar do tempo, e o gênero não teve muitos nomes novos que surgissem para renová-lo.

Se o manguebeat não se renovou e deixou de fazer sucesso nacionalmente, Chico Science segue como um expoente de nossa cultura contemporânea, mesmo duas décadas após seu falecimento. Popularizar um distinto gênero musical fora do eixo Rio-São Paulo não é para qualquer um. Chico ainda será lembrado por muito tempo.

Igor Miranda Jornalista natural de Uberlândia (MG). Apaixonado por rock há mais de uma década, começou a escrever sobre música desde 2007, com o surgimento do saudoso blog Combe do Iommi. Co-fundou e integrou o site Van do Halen até o ano de 2013 - apesar de ainda manter uma coluna, chamada "Cabeçote" e publicada sempre nas noites de segundas-feiras. Atualmente é redator-chefe da área editorial do site Cifras, afiliado ao R7. Trabalhou como repórter do jornal Correio de Uberlândia entre 2013 e 2016.