segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Melódico e impactante, folk platino da banda gaúcha Cuscobayo é irresistível
segunda-feira, agosto 18, 2014


Cuscobayo: "Na Cancha" (2013)

É formidável ser apresentado a estilos e culturas musicais diferentes, que fogem da estética e do padrão de costume. Preciso passar a vocês as impressões que tive com o primeiro EP do Cuscobayo, mas pela quebra dos próprios clichês que estou acostumado a ouvir - e analisar -, este texto se tornou um exercício mais complicado do que parece.

O Cuscobayo foi formado em 2012, na cidade de Caxias do Sul (RS), e é composto por Alejandro Montes de Oca (trompete e voz), Lourenço Golin (baixo), Marcos Sandoval (cajón e voz), Rafael Castilhos (percussões) e Rafael Froner (violão, ukulele e voz). Pelo termo ou rótulo, é difícil compreender a proposta do grupo. Eles fazem folk platino. Ou seja, agregam elementos da música tradicional do sul do Brasil, da Argentina e do Uruguai.

Não há questões separatistas, nem limitações de fronteiras. A cultura da região é apresentada, com qualidade, pelo quinteto. Nas quatro faixas do EP "Na Cancha", que é muito bem produzido e equalizado, a banda apresenta uma sonoridade acústica, tranquila e trabalhada, especialmente, na melodia. Os ganchos melódicos de todas as faixas são notavelmente grudentos.



"Ô, Vagabundo!" abre com um fade de percussão seguido da entrada de violão e do resto do instrumental, liderado por um trompete irresistível. A letra, que é um ode à vadiagem, resgata inconscientemente um pouco do sentimento platino. Versos como "Vou queimar identidade; E inventar um nome falso" e "Clandestino na minha terra; Sou local em qualquer parte" evidenciam que não há uma barreira que separa o Brasil de outros países - e, especialmente, de outras culturas. Ainda mais quando outras fronteiras estão mais próximas do que a capital de sua própria terra.

"Amenidade", como o título indica, é amena. Para uma música, não é uma qualidade, nem um defeito. Menos efervescente, a canção traz um pouco do charme da música popular brasileira - até porque a frente instrumental é do violão, e não do trompete. Na sequência, a folk "O Tempo Que Te Resta" tem ganchos melódicos bem trabalhados, nuances impactantes e ótima letra. Teria um apelo radiofônico mais interessante caso fosse mais curta - tem 4 minutos e meio de duração.


"Vaguear Perdido" é o momento de maior proximidade com o outro lado da fronteira. Não só pela boa letra em espanhol, mas pela influência ainda mais nítida da música argentina e uruguaia na construção melódica. Para quem está acostumado com a variante música brasileira, essa faixa, que é um pouco mais reta, pode causar estranheza de primeira. Apesar disso, é uma boa música.

A proposta do Cuscobayo é muito distinta, especialmente para quem não está no sul. Por isso, pode ser incompreendida em uma primeira audição e, em termos de mercado, o grupo pode ficar restrito à sua localidade - justamente por ser regional.

Mas fica o recado para quem não compreender a mensagem de início: não se deve ser ignorante a ponto de provar de uma boa produção artística apenas uma vez. Qualidades, detalhes e nuances são facilmente notadas no trabalho do quinteto caxiense, que tem muitas virtudes. Um disco full-length é uma boa pedida e pode fazer a minha nota aumentar.

Nota 8

Alejandro Montes de Oca (vocal, trompete)
Lourenço Golin (baixo)
Marcos Sandoval (vocal, cajón)
Rafael Castilhos (percussões)
Rafael Froner (vocal, violão e ukulele)

01. Ô, Vagabundo!
02. Amenidade
03. O Tempo Que Te Resta
04. Vaguear Perdido

Observação: o Cuscobayo já divulgou novas músicas no canal da banda no YouTube. Clique aqui para conferir.


Igor Miranda Jornalista natural de Uberlândia (MG). Apaixonado por rock há mais de uma década, começou a escrever sobre música desde 2007, com o surgimento do saudoso blog Combe do Iommi. Co-fundou e integrou o site Van do Halen até o ano de 2013 - apesar de ainda manter uma coluna, chamada "Cabeçote" e publicada sempre nas noites de segundas-feiras. Atualmente é redator-chefe da área editorial do site Cifras, afiliado ao R7. Trabalhou como repórter do jornal Correio de Uberlândia entre 2013 e 2016.