O Kiss virou sinônimo de fiasco - e isso se estende até a seus ex-integrantes


O Kiss sempre se vendeu como uma banda de shows. Não à toa, o grupo só emplacou de verdade com um álbum ao vivo ("Alive!", de 1975) e poucos trabalhos de sua discografia são considerados clássicos irretocáveis por quem não é fã inveterado.

Para uma banda que se promove como "a melhor atração ao vivo do mundo", é vergonhoso notar o estágio em que o Kiss se encontra nos palcos atualmente: cada vez pior. Vídeos de shows e relatos de fãs indicam que o grupo tem entregue apresentações ruins, com problemas musicais evidentes - de decorrência quase amadora - em meio a tantas luzes, fogos e outros recursos visuais que ajudam a disfarçar.

Ao que consta, o próprio Kiss parece ter notado que está na hora de parar. Por isso, foi anunciada a segunda turnê de despedida da banda, "End Of The Road", que começa em 2019 e deve ter duração de três anos. No entanto, como será possível lidar com essa situação ruim por tanto tempo até, enfim, pendurar as chuteiras?

Em meu ver, a gota d'água relacionada à qualidade ruim das performances do Kiss está nos vídeos dos shows realizados no Kiss Kruise, o cruzeiro da banda, no último fim de semana. O uso de playback, especialmente em músicas cantadas por Paul Stanley, é evidente.

Dois momentos de vídeo do Kiss Kruise - 0min24seg e 1min13seg - estão sendo apontados como os mais evidentes em termos de playback. E não dá para negar: basta perceber que Paul Stanley está longe do microfone e, mesmo assim, palavras são reproduzidas nas caixas de som. Veja:



É de conhecimento público que o frontman da banda tem apresentado problemas na voz há algum tempo - desde 2007, quando sofreu uma arritmia cardíaca, as gravações indicam que Stanley está indo de mal a pior.

A situação vocal de Paul Stanley, porém, se agravou nos últimos anos. Desde a turnê que promoveu o álbum "Monster" (2012), o Kiss tem tocado com os instrumentos afinados meio tom abaixo do seu habitual - ou seja, um tom abaixo da afinação padrão. Nem assim, o Starchild consegue entregar boas performances.

Em julho deste ano, vídeos de um show do Kiss na Espanha acenderam o sinal de alerta até para os fãs que tentavam ignorar o problema. Uma das filmagens, que mostra a performance da música "Love Gun", chega a preocupar mesmo os ouvintes mais casuais. A impressão é de que a voz de Paul Stanley irá sumir a qualquer momento.



Até mesmo Gene Simmons, baixista e eterno parceiro de Paul Stanley, falou sobre a situação - de forma indelicada e desnecessária, como o Demon está acostumado a fazer. Ele fez piada do colega durante recente show solo realizado na Austrália. Ao convidar funcionários de sua equipe para cantar uma música em cima do palco, Simmons disse: "Precisamos de ajuda. Não conseguimos cantar a música por nós mesmos porque tenho 69 anos e perdi minha voz!".

Paul Stanley respondeu às provocações com classe em entrevista ao podcast da Rolling Stone: "Ele está fazendo esses shows - em maioria gratuitos e quando ele cobra ingressos, não vende muito - e estou certo de que ele está tentando manter um tom leve para as 200 pessoas ou algo do tipo. E isso é ótimo! Estou com Gene há muito tempo e temos um vínculo invejável". No entanto, o Starchild não comentou sobre o que, de fato, acontece: sua voz estar definhando.

Dessa forma, a principal medida para evitar que os problemas vocais de Paul Stanley sejam expostos ao público é, aparentemente, o playback. O recurso já foi utilizado em duas recentes apresentações da banda em programas de TV americanos - os talk-shows de Jimmy Fallon e James Corden.

Em tais casos, há a desculpa de que performances televisivas costumam usar playback. Mas qual é a justificativa para o uso de tal recurso em um show teoricamente 100% ao vivo, como o do Kiss Kruise?



Outro ponto problemático nos vídeos mais recentes do Kiss é a forma de Eric Singer tocar bateria. Alguns fãs apontam, por meio das redes sociais, que o músico tem exagerado no trigger, um recurso amplamente utilizado que deixa as peças da bateria com o mesmo volume - e que, por vezes, pode ser usado quando o percussionista já não tem a mesma pegada de outros tempos.

No palco, Gene Simmons e o guitarrista Tommy Thayer continuam estáveis, ainda que, como o restante da banda, bastante burocráticos. Cada nota, passo e movimento dos integrantes é previsível - e não é só pelo tom de espetáculo que os shows possuem, porque há nomes como Roger Waters fazendo apresentações de mesmo teor, mas com pegada muito diferente.

Aqueles que ainda podem se distrair com os instrumentos distorcidos ou parafernálias de palco podem tirar a prova do momento ruim do Kiss nos vídeos do show acústico realizado, também, no Kiss Kruise. Sem tantos recursos para disfarçar, dá para ver que a banda não está muito habituada a ensaiar ou praticar.



Ex-integrantes estendem fase ruim

Como se não bastasse o próprio Kiss passar por um péssimo momento musical, os ex-integrantes da banda também têm feito apresentações ruins. E isso é ainda mais preocupante para os fãs, porque Paul Stanley tem dito, em entrevistas, que os músicos em questão podem participar dos shows da turnê de despedida.

O nome de maior destaque (negativo) é Ace Frehley, guitarrista original, que também se apresentou no Kiss Kruise e é o ex-integrante que mais tem se aproximado da banda nos últimos tempos.

Alguns vídeos dos três shows feitos por Frehley no cruzeiro mostram que ele é o problema de sua própria banda solo. Em vários momentos, o guitarrista não conseguia se lembrar das letras das músicas, cantar e tocar ao mesmo tempo ou reproduzir os solos compostos por ele nos tempos de Kiss.



Ace Frehley também protagonizou vexames nos shows caseiros que Gene Simmons vendeu por US$ 50 mil a fãs que também adquirissem o seu box set, "The Vault". A dupla foi até a casa de algumas pessoas que toparam pagar tamanha fortuna para uma apresentação exclusiva. Novamente, a qualidade técnica chamou a atenção - de forma negativa, é claro.



Outro ex-integrante do Kiss que tem passado vergonha de forma ocasional é Vinnie Vincent, que substituiu Ace Frehley entre 1982 e 1984. O guitarrista resolveu voltar aos holofotes, no início deste ano, após duas décadas afastado. Desde então, tem comparecido a alguns eventos relacionados à sua antiga banda e anunciou que fará, em dezembro, dois shows completos em Memphis - os primeiros dele desde 1988.

Em suas aparições ocasionais a eventos sobre Kiss, Vinnie Vincent já havia mostrado que não estava lá muito familiarizado com as seis cordas. Só que, nas situações também registradas em vídeo, ele se enrolou no violão ao invés da guitarra.

Agora, em filmagem também recente, Vinnie Vincent fez uma apresentação um tanto curiosa ao lado do Four By Fate, banda com dois ex-integrantes do Frehley's Comet, projeto de Ace Frehley na década de 1980. Conhecido por seus solos repletos de velocidade, Vincent subiu ao palco para tocar três músicas com o grupo, mas lembrava-se somente de duas - ficou sorrindo para a plateia durante "Cold Gin" -, confundiu-se com as bases, custou a fazer power chords e sequer entregou um solo àqueles que, provavelmente, pagaram caro para vê-lo.



Peter Criss foi o único que parece ter reconhecido que fica melhor fora dos palcos. O baterista original do Kiss chamou a atenção dos fãs durante sua volta à banda, entre 1996 e 2003, pelo baixo nível técnico de suas performances. Após deixar o grupo, lançou apenas um disco solo - o terrível "One For All" (2007) - e subiu a pouquíssimos palcos. Em 2017, aposentou-se de vez com alguns shows intimistas na Austrália e nos Estados Unidos.

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O único que tem feito bonito quando aparece é o injustiçado Bruce Kulick. O guitarrista fez apresentações de destaque nas edições do Kiss Kruise de 2017 (ao lado do irmão Bob Kulick) e deste ano, demonstrando que segue afiado nas seis cordas.

O Kiss virou sinônimo de fiasco - e isso se estende até a seus ex-integrantes O Kiss virou sinônimo de fiasco - e isso se estende até a seus ex-integrantes Reviewed by Igor Miranda on segunda-feira, novembro 05, 2018 Rating: 5

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