Dream Theater agrada ao notar que menos é mais em Distance Over Time; ouça


Resenha: Dream Theater – “Distance Over Time”

O Dream Theater precisava reagir após o criticado “The Astonishing”, de 2016. O penúltimo álbum representou a jogada mais ousada da banda até agora: duplo e com mais de duas horas de duração, o disco era conceitual e acompanhava até mesmo um livro para a plena compreensão de sua história. Informação demais até para um fã de Dream Theater, não é?

Por sorte, esse quinteto nova-iorquino sempre reagiu bem em meio a adversidades. E dois exemplos na discografia representam bem esse ponto.

O primeiro veio após o disperso “Falling Into Infinity” (1997): a banda lançou o bom “Metropolis Pt. 2: Scenes From A Memory” (1999) – que, inclusive, será homenageado na próxima turnê dos caras, sendo tocado na íntegra para celebrar seu 20° aniversário – e começou a construir um caminho sólido no nicho do metal progressivo. O segundo sucedeu a morna estreia do baterista Mike Mangini em “A Dramatic Turn Of Events” (2011): depois desse disco, veio o registro autointitulado de 2013, tido como um dos melhores do grupo nas últimas duas décadas.

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O poder de reação do Dream Theater se mostrou presente, mais uma vez, em “Distance Over Time”, seu álbum mais recente, lançado nesta sexta-feira (22) – inclusive no Brasil, em CD, pela Hellion Records. Conforme os próprios integrantes têm dito em entrevistas, o novo disco promove uma “volta ao básico”. As músicas são mais diretas, não há conceitos complexos por trás das letras e a ideia principal é dar aos fãs o que eles tanto queriam, sem rodeios ou floreios.

Ouça “Distance Over Time” no player a seguir, via Spotify:



Em entrevista à rádio francesa Oui FM, o vocalista James LaBrie destacou que Distance Over Time tem o lado progressivo e profundo do Dream Theater, mas, ao mesmo tempo, apresenta composições mais focadas e guiadas pelo hard/heavy rock. “Quando você conclui um álbum como 'The Astonishing', acho que é natural progredir para algo tipo 'como uma banda geralmente se forma'. Você se junta com todos em uma sala. É essa energia que começa a criar quem você é musicalmente”, afirmou.

A ideia mencionada por LaBrie de retornar às raízes da interação de uma banda foi levada bem a sério. “Distance Over Time” foi o primeiro álbum em que a banda morou junta durante os processos de composição e gravação. Todo o material foi feito e registrado em uma casa isolada em Monticello, Nova York – com exceção dos vocais, captados em um estúdio no Canadá, mas com linhas já definidas ainda nos Estados Unidos.



Ter todos os integrantes reunidos para a concepção do álbum não quer dizer, necessariamente, que todos contribuíram para a criação das músicas. James LaBrie tem deixado claro, mas entrevistas, que apenas trouxe as letras de duas músicas – “At Wit’s End” e “Out Of Reach”. Há quatro faixas com versos compostos pelo guitarrista John Petrucci, uma de autoria do baixista John Myung e outra de Mike Mangini, além de uma produção conjunta entre Myung e Petrucci. Já a parte musical ficou a cargo do quarteto instrumental. Porém, em comparação a “The Astonishing”, feito praticamente todo por Petrucci e pelo tecladista Jordan Rudess, dá para dizer que a proposta foi mais democrática por aqui.

No fim das contas, o 14° álbum de estúdio do Dream Theater se resume ao equilíbrio entre som pesado e bem arranjado. A preocupação com os refrãos, um pouco rara nos trabalhos mais antigos, parece ter sido um dos poucos legados que “The Astonishing” deixou. O restante não difere tanto do que já foi mostrado anteriormente pela banda: instrumental forte e muito técnico, ainda que sem os exageros de outrora, guiado pelos vocais típicos de LaBrie.

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A faixa de abertura, “Untethered Angel”, resume bem o que será apresentado por esse álbum. A entrada melódica cria um clima para a paulada que vem a seguir, com riffs pesados em afinações mais graves e um refrão que não empolga, mas convence. “Paralyzed” soa melhor: com apenas quatro minutos de duração – quase um marco para o Dream Theater –, a composição é mais envolvente e tem até cara de single inicial, embora tenha sido lançada apenas como a terceira música de trabalho.



Com seus riffs a-la Metallica, “Fall Into The Light” descamba para algumas mudanças de andamento bem interessantes, com direito a uma “caidinha” no meio. Boa música. A melódica “Barstool Warrior”, em tonalidade e proposta, lembra um pouco o Dream Theater antigo, ainda com Kevin Moore nos teclados – talvez, justamente, por Jordan Rudess aparecer mais por aqui.

“Room 137” apresenta um groove raríssimo no catálogo do Dream Theater. Soa como heavy metal atual, contemporâneo, como deveria estar sendo feito por outros nomes, ao apostar em uma levada rítmica envolvente. “S2N” é toda esquisitona e também tem foco no ritmo, mas em termos diferentes. John Petrucci, que chega a contribuir com vocais em dado momento. Mike Mangini é o grande destaque aqui.

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A extensa “At Wit’s End” já começa com fritação severa, bem na veia clássica do Dream Theater, e remete aos melhores momentos dos últimos álbuns com Mike Portnoy. É uma das poucas faixas em que os vocais de James LaBrie não soam enjoativo. Não dá para dizer o mesmo da balada “Out Of Reach”, guiada por voz e piano em mais da metade de seu andamento. Razoável. “Pale Blue Dot” conclui a tracklist em tom épico e experimental, na pegada mais tradicional do Dream Theater. Filha perdida de “Metropolis Part 1”.



Algumas edições de “Distance Over Time” contam, ainda, com a blues-metal (?) “Viper King”, que surpreende com seu groove. Infelizmente, a divertida faixa não estará na versão em CD nacional.

Para o Dream Theater, soar simples e direto ao ponto pode ser algo bem experimental. E a tentativa em “Distance Over Time” se sai bem. Embora tenha alguns momentos que não são exatamente memoráveis, todo o álbum agrada logo de primeira. Há pontos altos, como “Paralyzed”, “Barstool Warrior”, “Room 137” e “Pale Blue Dot”, mas todo o disco é bom. Tem posição de destaque na discografia do grupo, que, para mim, não é das mais regulares.

À Rolling Stone, John Petrucci chegou a dizer que não enxerga “Distance Over Time” como uma reação a “The Astonishing”. A grande maioria dos fãs deve discordar. E a resposta a um dos trabalhos mais criticados da banda se materializou muito bem. Jogar com o time costuma trazer resultados positivos. Espero que, finalmente, o Dream Theater tenha entendido isso.



James LaBrie (vocal)
John Petrucci (guitarra, violão, vocal)
John Myung (baixo)
Jordan Rudess (teclados, sintetizadores)
Mike Mangini (bateria)

1. Untethered Angel
2. Paralyzed
3. Fall Into the Light
4. Barstool Warrior
5. Room 137
6. S2N
7. At Wit’s End
8. Out of Reach
9. Pale Blue Dot

Faixa bônus:
10. Viper King (ausente na edição nacional)

Dream Theater agrada ao notar que menos é mais em Distance Over Time; ouça Dream Theater agrada ao notar que menos é mais em Distance Over Time; ouça Reviewed by Igor Miranda on sexta-feira, fevereiro 22, 2019 Rating: 5

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